Copo de 3

24 Julho 2014

Os vinhos Atlânticos da Ilha do Pico (Açores)

De todas as regiões demarcadas em Portugal os vinhos oriundos dos Açores são com toda a certeza os mais esquecidos, os menos discutidos, os menos divulgados e os que menos vezes chegam à mesa dos consumidores. No entanto a situação está a mudar e assiste-se a um esforço das entidades locais, entre produtores/CVR para que estes vinhos sejam encarados/consumidos de forma mais habitual.

Focando apenas na Ilha do Pico, são vinhos que nascem sensivelmente a meio do Atlântico, em solos de lava que marcam a paisagem da ilha e que a população local diferencia entre "lajidos" e "terras de biscoito" (Ilha Terceira). É uma região peculiar, moldada pelo ser humano nos famosos "currais", Património Mundial da Humanidade pela Unesco, que isolada de tudo se tornou depósito natural de castas únicas e diferenciadoras (cheiros e sabores) levadas pelos colonos. Destacam-se três castas, o Arinto dos Açores que é diferente do Arinto de Bucelas, o Verdelho que foi a primeira casta implantada na ilha e idêntico ao da Madeira mas diferente do encontrado em Portugal Continental e o Terrantez do Pico, distinto do Terrantez da Madeira e do que se encontra no Dão.

Durante anos o mais famoso vinho da Ilha do Pico foi o licoroso, cuja principal característica é a não adição de aguardente, hoje em dia a oferta é mais vasta e estende-se por brancos frescos, de travo salino/mineral em conjunto com licorosos que oscilam entre o perfil mais seco ou mais doce, capazes de surpreender pela diferença.
Uma prova de contrastes, surpresas e comparativos onde a forte ligação à mesa com peixe e marisco se tornou mais que evidente. Contou com as presenças dos produtores Maria Álvares (Cooperativa Vitivinícola da Ilha do Pico), Marco e Rui Faria (Curral de Atlântis), Paulo Machado (Insula Vinhos) e Fortunato Garcia (Vinho Czar), foi conduzida pelo enólogo António Maçanita (Fita Preta).

Curral Atlântis Arinto dos Açores Colheita Selecionada 2013 (IG Açores)
 Muita frescura, toranja, lima, folha de limoeiro, salino, menos expressivo que o Verdelho. Muita energia no palato, frescura, sumo de citrinos maduros, mineralidade em conjunto com bom final de boca. 89pts

Curral Atlântis Verdelho Colheita Selecionada 2013 (IG Açores)
 Marcado pelo toque mais tropical da fruta, cheio e maduro, fresco e salino, envolvente com nota de pederneira. Boca com frescura, vegetal fresco com fruta tropical, seco no final mediano. 88 pts

Curral Atlântis Verdelho/Arinto dos Açores Colheita Selecionada 2013 (IG Açores)
 Aroma de fruta tropical com citrinos maduros, boa frescura, muito limpo, notas de um Verdelho mais gordo e redondo que abraça o Arinto mais ácido e cortante. Conjunto com harmonia entre castas num vinho claramente feito para a mesa. 90 pts

Arinto dos Açores by António Maçanita 2013 (DO Pico)
 Frescura num conjunto marcado pelo detalhe da fruta limpa (citrinos) e delicada, toque salino, todo muito equilibrado e a dar uma prova muito agradável. Na boca é fresco, salino, muito citrino presente com final persistente. 91pts

Insula Private Selection 2013 (IG Açores)
 Feito com Arinto dos Açores, carácter vincado num vinho tenso e com muito vigor, notas de pederneira ao lado de fruta limpa e madura, toranja e limão. Boca com austeridade mineral, quase salino, fruta madura a envolver num final de boca seco e prolongado. 90pts

Frei Gigante Reserva 2012 (DO Pico)
 Um perfil diferente do normal, blend de Arinto dos Açores com Verdelho e Terrantez do Pico. Conjunto perfumado com fruta madura (pêra, toranja), fumo, salino, ao mesmo tempo sensação de untuosidade e envolvência. Boca com boa presença da fruta madura, saboroso, boa acidez a terminar seco e mineral. 90 pts


Lajido Licoroso Seco 2002 (DO Pico)
 Não é um vinho de abordagem fácil, recorda ligeiramente os vinhos de Jerez, pela oxidação em conjunto com toque salino e fruto seco, amanteigado com ligeiro iodo. Boca com secura, fresco com frutos secos e iodo, num final persistente e longo. 88 pts

Lajido Licoroso Reserva Doce 2004 (DO Pico)
 Num perfil mais untuoso que o Lajido Seco, notas de frutos secos cobertos de caramelo, laranja caramelizada, uva passa, biscoitos, tudo em boa complexidade. Boca a condizer com os aromas, envolvente e com uma bela acidez. Final longo e persistente. 91 pts

Czar Licoroso Superior Doce 2008 (DO Pico)
 O mais exótico e fora do habitual, resina, toque de frutas cristalizadas com especiarias, ervas de cheiro e tisana, boa frescura a embalar o conjunto com toque salino em fundo. Gordo, complexo, guloso e estranho, diferente e divertido. 90 pts

Curral Atlântis Verdelho/Arinto dos Açores Doce 2005 (DO Pico)
 Passou 5 anos em barrica e 1 ano em garrafa, muito equilibrado, torrefacto, laranja caramelizada, salino e untuoso. Boca a mostrar muita frescura que liga com fruta caramelizada, calda de fruta, final longo e persistente. 89pts

Publicado em 03 junho 2014 em Blend - All About Wine

20 Julho 2014

Terras de Tavares - O Dão do João


A Quinta da Boavista, pertença da família Tavares de Pina, onde se produzem os vinhos Terras de Tavares e Torre de Tavares, situa-se na Região Demarcada do Dão, Penalva do Castelo, entre as Terras de Penalva e as Terras de Tavares, a uma altitude aproximada de 450m.

A Quinta data dos finais do séc. XVIII tendo tido a vinha como actividade principal e hoje em dia conta ainda com a criação de cavalos raça Lusitana, mas também já ali se produziu o famoso Queijo da Serra da Estrela. Os cerca de 7ha de vinha situada em solos de transição xisto-granito de grande profundidade e elevados teores de argila conferem aos vinhos características muito especiais.
A uva que antes era vendida para a Cooperativa local, deu origem em 1997 ao primeiro Terras de Tavares, considerado até hoje como um dos melhores vinhos do produtor. Apenas em 2005 começaram a ser vinificados na Quinta. Até então apenas elaboravam blends de toda a produção que eram produzidos na Quinta da Murqueira.

Na Quinta da Boavista, João Tavares de Pina, um amigo de longa data e produtor apaixonado pela região com toda a irreverência que o caracteriza, vai criando a seu gosto vinhos plenos de identidade, de forte ligação à terra, espelhos de cada colheita que apenas são lançados para o mercado quando ele considera estarem aptos para consumo.

Não procura o agrado fácil. Os vinhos são feitos à sua imagem, com madeira pouco presente e estágios prolongados em garrafa. Brilhantes à mesa, apreciadores de uma boa conversa, claramente marcados pela alma da região num cunho muito próprio que João trata de aprimorar colheita após colheita.
Em conversa ficamos a saber que o João tem um carinho muito especial pela Jaén que considera de enorme potencial, juntando também a Tinta Pinheira e a Touriga Nacional. À Quinta da Lomba (Gouveia) foi buscar as uvas de onde produzia os seus brancos à base de Encruzado, Cercial e Síria. Entretanto as vinhas foram vendidas, pelo que teremos de esperar, quem sabe até 2015 para termos um novo Torre de Tavares branco.
Numa visita recente à Quinta da Boavista, aproveitei o seu fantástico enoturismo para me deliciar com a excelente gastronomia regional que João Tavares de Pina nos prepara a acompanhar os seus vinhos. Tive pena de não ter levado os calções de banho para dar um mergulho na fantástica piscina, mas fica para outra altura.

Torre de Tavares Síria 2009 (Regional Beiras)
Aroma a mostrar notas de muito boa evolução, intensidade média, flores, fruta (tangerina, maçã verde) com muita frescura e mineralidade de fundo. Boca com estrutura coesa, saboroso, com notas de fruta madura, num final fresco e bastante mineral.

Torre de Tavares Encruzado 2008 (DOC Dão)
Encruzado que não foi filtrado, mostra aroma evoluído com complexidade, cheio de detalhes, fruta madura, flores amarelas com toranja e marmelo, palha, sensação de untuosidade com boa mineralidade. Boca envolvente, fruta em calda, frescura com mineralidade em fundo.

Rufia 2012 (DOC Dão)
Nasceu na colheita 2009 como um 100% Rufete (Tinta Pinheira). Agora na nova edição juntou-se com a Touriga Nacional e a Jaén. O resultado é um vinho atrevido e cheiroso, pouco consensual devido à componente vegetal (rama de tomate) que está em evidência, embora a fruta esteja presente com muito boa qualidade e quase que se trinca. O vinho é mais sério do que se pode imaginar, um verdadeiro rebelde que alia compotas e balsâmico, sustentado por uma bela estrutura, com taninos presentes em final saboroso.

Torre de Tavares Jaén 2008 (DOC Dão)
Será posto à venda nos próximos meses. Apesar dos seis anos que já tem, está ainda muito novo mas cheio de encantos e recantos tão característicos do Dão. Está limpo e fresco, cheio de energia, muito fruto silvestre, balsâmico, pinheiro, cacau, madeira integrada com boa frescura. Explosão de sabor no palato, frescura com taninos a pedir comida por perto. O final deste belíssimo Jaén é longo e persistente.

Torre de Tavares Jaén 2007 (DOC Dão)
Vinho que desperta um sorriso, muito limpo e rico de aromas, coeso e envolvente a mostrar o grande vinho que é. Aromas característicos do Dão bem vincados, mato, pinheiro, frutos silvestres, muita frescura sempre presente, cacau e mineral em fundo. Boca a condizer, grande estrutura de apoio, muito boa frescura com a fruta sumarenta a marcar presença, taninos firmes com final especiado e longo.

Torre de Tavares Touriga Nacional 2008 (DOC Dão)
Uma Touriga Nacional mais contida e delicada, com aroma limpo, sedutor e fresco. Notas de alfazema, mato, vegetal e fruta madura bem integrada. Boca bem estruturada a mostrar fruta (cereja) bem casada com a madeira, balsâmico e mineral em fundo com taninos ainda por polir. Final longo e persistente.

Terras de Tavares 2006 (DOC Dão)
Resulta do blend Touriga Nacional e Jaén, com estágio de 3 anos em barrica e posterior estágio em garrafa. O vinho mostra-se ainda muito novo, cheio de vigor e a pedir tempo. Floral, com fruto negro e mineralidade em fundo. Na boca mostra muita força, taninos presentes, fruta gorda e frescura. É vincadamente terroso e possuí um grande final.

Terras de Tavares Reserva 1997 (DOC Dão)
Blend de Jaén e Touriga Nacional com domínio da primeira sobre a segunda. Complexo e delicado, limpo e perfumado, exibe notas de resina, floral, cacau, fruta vermelha gulosa (mirtilo e cereja), complementados com toques terrosos e especiados. Na boca é suave mas firme, longo, e com taninos domados. Muito elegante e com travos de um Dão clássico, precisa de tempo no copo. Final longo e persistente, num vinho que enaltece a sua região.

Publicado em 30 maio 2014 in www.blend-allaboutwine.com

18 Julho 2014

Quinta de Cidrô Gewürztraminer 2012

Para quem não conhece a casta Gewürztraminer e nunca provou nada vindo lá de fora (aqui até um básico serve) onde é rainha e senhora, compreendo que poderá ficar entusiasmado com este vinho. Pessoalmente não lhe consegui encontrar grandes motivos de extrema alegria ou mesmo vontade de o continuar a beber ou sequer pensar em ter por casa. A conversa é simples e resumida, invoca ligeiramente aquilo que a casta é mas de forma enfadonha, pesada e sem a frescura ou aquele ar de perfume de menina que os "genuínos" têm e mostram. É envolto em fruta gorda besuntada por geleia e uma acidez que o salva do desmoronamento total o que apenas acontece quando a temperatura sai da zona de conforto. O preço que salvo erro ronda 10€ parece-me caro e será sempre mais bem empregue num muito bom Alvarinho, Encruzado, Arinto, Rabigato, Bical, Loureiro... 88 pts

Alonso del Yerro 2010

Vem da vizinha Ribera del Duero (Espanha) este vinho que não é a primeira vez que por aqui aparece, 2007 e 2008 já foram alvo de visita. Produzido pela Bodega Alonso del Yerro mostra novamente argumentos suficientes para se entender porque é considerado um dos novos meninos bonitos da região. Uma vez no copo o que se destaca mais é a qualidade e frescura da fruta, toda a elegância com que se bandeia no copo, fresco, leve apontamento apimentado com regaliz/alcaçuz num conjunto complexo a mostrar grande trabalho da barrica muito bem integrada. Por detrás fica uma estrutura sólida o suficiente para lhe garantir boa evolução em garrafa, marcado novamente pela presença da fruta aveludada e fresca que escorre pelo palato, tosta e pimentas, final longo e persistente com taninos ainda presentes lá no fundo. Pelo seu porte e comportamento à mesa a escolha foi uma perna de cabrito com batatinha assada no forno. 93 pts

17 Julho 2014

Julia Kemper branco 2009

Já vem de longe este meu hábito de deixar esquecidos na garrafeira alguns dos vinhos que vou comprando, dá-me um gozo tremendo abrir um determinado vinho passado x anos e esmiuçar a maneira como se comporta desde a última vez que o bebi. Neste caso foi com amigos que decidi vasculhar pela cave e encontrei este Júlia Kemper branco de 2009, um vinho do Dão feito à base de Encruzado e Malvasia Fina. A primeira impressão foi muito satisfatória e até teve direito a sorriso, evoluiu muito bem e está num alto momento de consumo, sério, complexo e cheio de vida, exibindo todos os pergaminhos de um vinho que soube evoluir no melhor dos sentidos. 

Bebido em dois momentos foi ao almoço que brilhou com uma sopa de garoupa bem apaladada a contrastar com o conjunto das duas castas, ao mesmo tempo que a Malvasia Fina nos colocava o tom mais melado à disposição, a força da Encruzado com naturais aromas citrinos e florais em sintonia com uma barrica muito bem encostada que lhe confere alguma untuosidade muito fina mas ao mesmo tempo envolta em frescura no conjunto. Um branco em grande forma a dar bastante prazer a todos aqueles que tal como eu guardaram umas garrafas para ir abrindo. 92 pts

14 Julho 2014

Táganan Parcela Amogoje 2012


Haverá melhor recompensa para um produtor do que nos conseguir cativar por aquilo que encontramos num dos seus vinhos e ficarmos com vontade de conhecer os restantes ? Foi o que aconteceu após ter caído no copo um fascinante Tinta Amarela feito em terras da Ribera del Guadiana (Espanha) bem perto de Badajoz. Face à qualidade do dito tinto, fomos buscar o branco elaborado pela equipa Envínate, neste caso um branco proveniente das Ilhas Canárias mais propriamente dos solos vulcânicos de Tenerife, onde o vinhedo velho pré-filoxérico com mais de 100 anos é dominado pelo field blend com castas brancas Malvasia, Gual, Forastera, Marmajuelo, Albillo Criollo, Vijariego Blanco, Listan Blanco... Toda a produção segue a mesma filosofia minimalista do grupo, neste caso estagiou numa barrica de 500 litros durante onze meses e foram engarrafadas cerca de 600 garrafas, preço a rondar os 18€.

Claramente diferente, complexo e intrigante, necessita de tempo e paciência, a primeira impressão que dá é de uma ligeira oxidação, mostra-se complexo e perfumado, cremosidade suave da barrica com muita frescura de conjunto. Sério, coeso, flores, fruta madura (meloa), especiaria, pederneira, boca a condizer com untuosidade ligeira de entrada para passagem frutada no palato, saboroso com uma acidez que lavra na língua, final seco e  prolongado com ponta salgada. Bichos do mar servidos ao natural com uma gota de limão, o resto é beber e descontrair. 92 pts

13 Julho 2014

O Enólogo Encruzado 2013


Passarella é nome grande na região do Dão que após andar uns anos no limbo teve na mudança para boas mãos a capacidade de se reformular e catapultar com vinhos cativantes para os copos da nação num par de anos. Enologia de sentidos apurados do enólogo Paulo Nunes que tem feito um trabalho fantástico no "domínio" desta nova Casa da Passarella. Este é mais um exemplo do seu trabalho, a nova colheita deste Encruzado a sair para o mercado, relembro que a dita casta é preguiçosa pelo que precisa de tempo para arrumar as ideias, beneficiando quase sempre com dois ou mais anos de guarda. Enquanto novo como o provamos agora, está nervoso, tenso com uma acidez muito boa na boca, quase eléctrico, cuja tosta ligeira da barrica se dilui em muita fruta madura desde o tropical ao citrino, resina de pinheiro com uma saudável austeridade mineral de fundo. Um Encruzado de fina estirpe, custa 13€, para beber agora ou guardar, acompanha na perfeição marisco e peixe grelhado. 91 pts

BSE branco seco especial 2013


É produto da José Maria da Fonseca, um vinho bem disposto que é tão fácil encontrar como de beber, nada complicado assenta na frescura e qualidade da fruta e acima de tudo está muito bem feito. Repetindo o que disse na colheita passada, acompanha saladas, marisco, peixe grelhado e comida com toque oriental, desde que não muito puxada no tempero, sushi e companhia são bem vindos. Muita fruta madura e cheirosa, tropical com frutos de pomar nos aromas e sabores, fino e delicado mas com boa presença na boca, vincado por uma boa acidez em final seco. Preço de 3,50€ ... 88 pts

22 Junho 2014

João Portugal Ramos Loureiro 2013


A aventura de João Portugal Ramos no mundo do vinho começou em 1980. Chegou a andar pelo Dão, Lisboa e Setúbal, mas nos dias de hoje conta com presença nas regiões do Alentejo, Tejo, Beiras e Douro. Os canais internacionais de distribuição pediram-lhe um Vinho Verde e foi isso que o fez lançar em 2011 o seu primeiro vinho daquela região, o Lima Loureiro em exclusivo para o mercado Americano. Consolidado o projecto sediado em Monção, investimento que rondou 1 milhão de euros, lançou com sucesso na colheita de 2012 o João Portugal Ramos Alvarinho (Portugal, UK e USA).

Chega agora a vez de lançar no mercado Português e com igual sucesso o João Portugal Ramos Loureiro 2013 (3,79€ PVP). Um vinho de aroma fresco e elegante, citrinos, erva-príncipe, ervas de cheiro combinadas com mineralidade de fundo. No palato mostra boa acidez e sabor refrescante com bom final de boca. Sob a influência marítima, a região dos Vinhos Verdes tem nos seus vinhos um verdadeiro símbolo de boas vindas ao verão, resultando numa harmonia perfeita com marisco, ceviche ou simplesmente como vinho de esplanada. 87 pts 

Publicado em 22 maio 2014 em Blend All About Wine

20 Junho 2014

Cantos del Diablo 2011

Não é a primeira vez que um vinho sob o nome Jiménez-Landi aqui aparece, será sim a primeira vez que surge não como o projecto familiar mas como o projecto pessoal de Daniel Gómez Jiménez-Landi. A filosofia seguida é a mesma, domina a Garnacha de vinhedos velhos em parcelas muito especiais como a do Cantos del Diablo (mais de 60 anos) localizada em solos graníticos a 900 metros de altitude em El Real de San Vicente (Serra de Gredos). A intervenção como vem sendo costume é minimalista, pisa a pé, 100% engaço, nada de bombas e as leveduras são autóctones, sulfuroso o mínimo necessário, sem filtrar e apenas se utilizam grandes volumetrias para estágio (500-3000 litros) de forma a respeitar ao máximo o local que lhes deu origem. No final o resultado são 2500 garrafas com preço a rondar os 40€.

Destaca-se pela tonalidade mais aberta, tipo Borgonha, pelo que fica longe das concentrações excessivas que nos assombram os copos. Conquista pelo nariz no imediato, limpo, exuberante com enorme frescura e elegância mas a sentir-se força e coesão do conjunto. Rica complexidade com fruta vermelha madura, bergamota, floral, ervas de cheiro, pimenta preta, fundo mineral num conjunto muito novo e com tanto para dar. Riqueza de boca, sente-se aquela frescura vegetal muito limpo do engaço, gosto, mineralidade em fundo, profundo e bastante fresco, muito coeso com palato a ser bem vincado durante a passagem. A somar a tudo isto a elegância geral do conjunto, a vontade que dá em continuar a beber mais um e outro copo, até que acaba.Terá uma grata vida pela frente, mas resistir-lhe é tão complicado. 94 pts

19 Junho 2014

Quinta dos Carvalhais Reserva branco 2010

É o "novo brinquedo" da Quinta dos Carvalhais (Dão) que vem no seguimento do afamado Colheita Seleccionada surgido em 2004. Tudo se mantém na mesma, reina um dueto de Encruzado e Verdelho, estágio que neste caso ronda 36 meses em barricas de 225 litros de carvalho francês e russo, com diferentes graus de utilização, do qual resultaram 6.800 garrafas com preço a rondar os 15€. Na memória ainda tenho o 2004 que continua a ser até à data o mais bem conseguido de todos e o mais especial. Não me cativa este perfil de vinho branco, não procuro vinhos cujo banho de madeira dado à fruta (aqui já em avançado estado de maturação) domina a prova mesmo com a frescura que possa ter, a madeira continua lá, incomoda e satura com os aromas derivados do tempo (frutos secos, baunilha) que passou por ela e das notas de evolução que mostra ter. Na boca melhora um pouco, com estrutura e corpo, frescura e bom final, direi que será aqui que ganha mais pontos, terá certamente os seus apreciadores... eu não sou um deles. 90 pts

13 Junho 2014

José Sousa Mayor 2009

Com toda a certeza será dos vinhos do Alentejo que mais história carrega sendo por direito próprio durante largas décadas o máximo representante da zona onde nasce, Reguengos de Monsaraz. O nome continua o mesmo, José de Sousa, na altura o chamado Tinto Velho feito à moda antiga ou direi sem direito a adegas e laboratórios de topo, era e é vinho feito em talha de barro que foi perdurando durante o tempo, entusiasmando e deliciando todos aqueles que o bebiam, até que nos anos 80 mudou de mãos e a vontade de perdurar o legado o salvou da extinção certa. Hoje é da responsabilidade da José Maria da Fonseca, chega hoje à nossa mesa como Mayor, aquele que já foi Garrafeira e antes Tinto Velho, a homenagem a um nome grande da história do vinho em Portugal e um verdadeiro Clássico. 

De um lote que qualquer dia ainda é apelidado de inovador, Grand Noir, Trincadeira e Aragonez chega este 2009 já  muito pronto a beber, o tempo de espera fez-lhe bem, ainda que mostre uma ligeira austeridade no final de boca que lhe permite mais alguns anos de esquecimento na garrafeira. Todo ele maduro e fresco, envolvente com notas de tabaco seco com ligeiro terroso/barro, fruta fresca (morango, ameixa, bergamota) e gulosa, leve balsâmico em conjunto de requintada complexidade.  Boca a mostrar muito boa estrutura, vigor, vinho sério com a fruta a marcar presença, passagem macia pelo palato em final especiado/terroso com boa frescura. Acompanhou com grande mestria um Assado de Borrego. 93 pts

10 Junho 2014

Tinta Amarela Parcela Valdemedel 2012

Total surpresa é o mínimo que se pode dizer quando esta garrafa nos aparece à frente, mais espanto ainda quando temos o vinho no copo, rodopiamos e cheiramos. Nada mais que um Tinta Amarela a famosa Trincadeira do Alentejo, tantas vezes deitada fora, tantas vezes ignorada por castas "mais sonantes" e cada vez mais extinta da vinificação a solo. Depois de provar este vinho simplesmente não entendo porque razão no Alentejo não se faz um Trincadeira assim.

Tudo começa com o grupo Envínate (Avinha-te) formado por quatro amigos enólogos ( Laura, Jose, Roberto e Alfonso) de formação que estudaram juntos e partilham os mesmos ideais de encarar o vinho e a vinha até ao produto final, intervenção mínima com leveduras autóctones e seguem o calendário Biodinâmico para os trabalhos com a vinha. Têm vinhedo na Ribera Sacra e nas Canárias, sempre com o objectivo de alcançar a autenticidade e precisão, fogem das modas, procuram obter a máxima expressão de cada parcela, assumindo claramente que se não fosse deste modo estavam a produzir Coca Cola em vez de vinho.

O vinho em causa nasce de uma vinha com mais de 15 anos, situada numa ladeira de solo argilo-calcário a coisa de 500 metros de altitude na vizinha Ribera del Guadiana perto da vila de Alange (Badajoz). Estagiou em barricas usadas de 225 litros de carvalho francês durante 11 meses. Conquista no imediato pela limpeza e definição de todo o conjunto, cheio de fruta (framboesa, morango, amora) madura, complexidade delicada com ervas aromáticas, pimenta, bem embalado com uma madeira que integrada pouco se mostra, acomoda e pouco mais. Na boca é a frescura que envolve e domina um conjunto onde fruta suculenta se mostra, elegante de corpo mediano a mostrar vigor com alguns taninos, rasgo de mineralidade em fundo. Prazenteiro e companheiro da mesa, falta-lhe um algo mais de complexidade e profundidade para se tornar um grande vinho, mas pelo preço que ronda os 15€ é uma aposta mais que obrigatória, caso ainda o encontre. 93 pts

09 Junho 2014

Morgadio da Calçada, de Provesende para o mundo.


Na pacatez da pitoresca Vila de Provesende reina um ambiente acolhedor e pleno de tradição. Pela manhã o ar fresco e puro é tomado pelo cheiro a pão cozido que percorre as ruelas e guia-nos a uma visita obrigatória à padaria.Um dos mais antigos solares daquela vila é a Casa da Calçada, um imponente solar duriense cuja fundação remonta ao séc XVI pertença do Morgado da Calçada, mandado construir no final do século XVII pelo desembargador Jerónimo da Cunha Pimentel, mantendo-se na família até aos dias de hoje.É Manuel Villas-Boas quem nos abre o portão que dá passagem para um conjunto de antigos edifícios agrícolas, alvos recentes de uma profunda e cuidada reabilitação, que deram origem a uma bonita unidade de enoturismo. No total são oito quartos e piscina, onde o bom gosto se alia à tradição com um ligeiro e necessário toque de modernidade. Se aliarmos tudo isto à arte de bem receber de Manuel Villas-Boas, apenas faltará abordar os belíssimos vinhos que ali são produzidos.

Na verdade, o vinho sempre fez parte da história daquela casa e a visita à antiga adega apenas o confirma com a presença de imponentes e históricos tonéis de madeira. Os cerca de 4,5 hectares de vinhas moram lado a lado com a casa e reconversão das mesmas teve início no ano de 1980, terminando por volta dos anos 90. A vinha divide-se em três parcelas: a mais velha com mais de 100 anos, uma só de castas brancas de cerca de 2,5 hectares com idade a rondar os 20 anos e outra de castas tintas com idade aproximada de 30 anos. Foi nessa altura que se criou a parceria Casa da Calçada - Niepoort com o surgimento da marca Morgadio da Calçada, sendo todo o processo de vinificação tratado na Quinta de Nápoles (Niepoort). Também aqui os detalhes não foram deixados ao acaso e no desenho dos rótulos surge a assinatura do Arq. Siza Vieira para os vinhos tranquilos e do Arq. Michel Toussaint para os vinhos do Porto. Dirk Niepoort é um confesso admirador das vinhas de Provesende, criando ali vinhos de grande frescura e elegância, para o que muito contribuem os 600 metros de altitude e as grandes amplitudes térmicas. Em prova, nenhum dos vinhos se revelou marcado pela madeira e todos mostraram uma enorme apetência gastronómica.

Morgadio da Calçada Branco 2012, Douro
Fruto de um grande ano, reina aqui a limpeza e frescura da fruta madura (citrinos, ameixa branca, pêra) de grande qualidade. Apenas 60% do lote passou por madeira num conjunto muito novo e cheio de energia, dominado em fundo por austeridade mineral. Prova de boca elegante, fruta presente com harmonia, alguma tosta da madeira com frescura a envolver todo o conjunto.

Morgadio da Calçada Branco Reserva 2010, Douro
Um vinho que cresce com tempo no copo, beneficia se for decantado, a mostrar um requintado bouquet com fruta presente (citrinos, ameixa branca), complexo, elegante e convidativo. Da passagem a 100% por madeira, ganhou algum peso num perfil mais estruturado e profundo, complexo e sério que o irmão mais novo. Na boca, muito boa presença com leve cremosidade, fruta cheia de sabor, num final especiado, mineral e persistente.

Morgadio da Calçada Tinto 2011, Douro
Estagiou em barricas usadas, madeira discreta ampara um conjunto dominado pela frescura de fruta vermelha/negra (bagas, framboesa,) gulosa com leve doçura, toque de fumo, cacau. Todo ele elegante, com boa estrutura, palato cheio de frescura e fruta, envolvente a terminar com ligeira secura.

Morgadio da Calçada Tinto 2004, Douro
Foi o primeiro tinto Morgadio da Calçada, simplesmente delicioso, cativa no imediato. A fruta limpa, madura e muito bem definida mostra-se banhada numa capa de leve doçura, envolto em frescura e complexidade, especiarias, esteva, cacau, profundo e conversador. Boca cheia de sabor e frescura, macio no palato, muito requinte, leve traço vegetal e especiaria em final longo e persistente. Muito bom.

Morgadio da Calçada Tinto Reserva 2007, Douro
Da selecção das melhores uvas das vinhas mais velhas nasce o Reserva, sério e complexo, sente-se uma ligeira austeridade tão característica dos tintos do Douro, a pedir tempo de copo. Fruta expressiva (cereja, amoras) com notas de esteva, especiaria, nota de licor, mineral, elegante e macio no palato. Saboroso com rica textura, frescura e profundidade, num tinto de gabarito e classe.


Texto original Publicado em 30 abril 2014 em Blend - All about wine
 
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