Copo de 3

16 Abril 2014

Quinta do Junco Vintage 1995

A Quinta do Junco cuja história se perde no tempo, fica localizada bem perto da também conhecida Quinta de Terra Feita, perto do Pinhão (Douro). Foi comprada em 1906 pela Borges & Irmão e vendida à Taylor´s em 1997. Este Vintage foi lançado para o mercado como Quinta do Junco tendo sido relançado como Borges uma vez que o primeiro lançamento foi prejudicado pela respectiva venda da Quinta. Saiu em plano delicado, bouquet rendilhado, caixa de charuto, muita fruta em modo compota e passa muito fresca, tudo com bom realce embora sem exageradas concentrações, apimentado no travo em final mediano. 91 pts

14 Abril 2014

LA BOTA DE AMONTILLADO VIEJÍSIMO (nº5) NPI

Na vida de enófilo há momentos únicos e que desejamos um dia poder repetir. Este é mais um desses casos, passados tantos anos do seu lançamento e da primeira vez que o bebi, eis que me volta a cair no copo. Como breve nota introdutória este é o vinho mais antigo da casa Sánchez Ayala, está dentro de uma velhíssima bota (barril) rotulada com as letras ''NPI''. Quando o penúltimo capataz da adega, reformado no início do séc. XXI, ali chegou nos anos 60 do passado século, já morava no seu interior um amontillado muito velho. Desde essa altura, praticamente ficou intacto, de facto a primeira saca que merece tal nome é a que a Equipa Navazos realizou em Janeiro de 2007, duzentas meias garrafas, quantidade equivalente a 15% do conteúdo da bota. O volume que se tirou foi reposto com outro amontillado muito velho a fim de assegurar a continuidade deste fantástico vinho, cuja idade média é difícil de estabelecer, devendo rondar os 100 anos. A sigla ''NPI'' não deixa de ser curiosa, a explicação dada por um dos históricos donos da adega é que na altura de estabelecer uma idade para o referido vinho, disse: Ni Puñetera Idea.

E é nesta onda de mistério, tradição e exclusividade tão intimamente ligadas a Jerez, que este Amontillado literalmente nos esmaga com aquilo que mostra em prova.Um vinho que não é de fácil abordagem, precisa de tempo e dedicação, precisa que haja vontade de se querer entender o que nos tem para dizer, intrigante, fascinante e de uma complexidade enorme, um autêntico vinho de compêndio onde nada parece falhar ou ficar esquecido. De inicio há que dar tempo para as lacas e verniz saltarem borda fora, cesta de frutos secos com toque de iodo, toque muito salino a fazer lembrar a maresia, barrica velha, fruta cristalizada (laranja), cardamomo, anis estrelado... Na prova de boca é arrebatador, desafiante para o palato com inicio a mostrar aquele toque de fruto seco, ao mesmo tempo salgado num todo embrulhado pela untuosidade (nougat) adquirida ao longo das décadas de estágio, arredonda nos cantos com imposição total no palato, marcante, caramelo torrado, com uma frescura que lhe corre pela alma. Direi mesmo que não tem fim. São vinhos como este que me fazem sonhar,  tudo fica parado à minha volta, silêncio, apenas eu e o copo. 100 pts

13 Abril 2014

Grande Rocim Reserva 2009

Apresenta-se como o topo de gama da Herdade do Rocim (Alentejo), enverga uma pesada armadura que o envolve e torna majestoso, arrebatador e feito para perdurar no tempo. Apesar do peso que para alguns pode ser excessivo, alia o seu lado mais vigoroso com uma invejável elegância de movimentos. Tem na alma a essência da Alicante Bouschet, o ano e meio que passou pela madeira foi atenuado com mais um ano de garrafa até sair para o mercado. Todo o tempo extra que continuar em garrafa só lhe fará bem, está muito novo, embora com grande frescura de nariz, inicio com azeitona preta para dar lugar a fruta escura e sumarenta, ervas de cheio, cacau, coeso, profundo, ligeira nota de licor, fundo fresco com sensação de grafite. Boca de grande impacto com enorme presença, amplo, fresco, muito boa estrutura com fruta e especiaria em fundo, sumarento e muito persistente no final. Tudo com grande detalhe, limpo e fresco com uma enorme vida pela frente, paga-se por tudo isto coisa de 50€ com a garantia que se leva para casa um dos melhores tintos feitos no Alentejo e em Portugal. 95 pts

10 Abril 2014

Quinta do Mouro 1998

Há quem diga e com razão, que o vinho é preenchido por memórias e este é disso exemplo. Ainda hoje me recordo a primeira vez que entrei na Quinta do Mouro (Estremoz) para comprar o seu vinho, na altura estava a sair para o mercado o Quinta do Mouro 1997. Os vinhos da Quinta do Mouro são temperamentais e únicos, gostam de contrariar tudo e todos, ora se o ano dizem não ser dos melhores sai um vinho arrebatador, exemplo disso este 1998 fruto de um dos piores anos que há memória por aqueles lados. Fruto desse temperamento tão especial que mora naquela adega, a aventura começa com a colheita de 1994 embora os vinhos tenham sido feitos até 1998 em adegas "emprestadas". Terá sido este que agora falo o primeiro a nascer em casa, na adega da Quinta do Mouro, um vinho do qual o seu proprietário afirma nunca ter gostado.

Salta para o copo qual besta negra, escuro e coeso, a chamar para lhe metermos o nariz encima num início dominado por alguma azeitona preta... deixar respirar, rodopiar o copo, ir tirar as Burras que estavam a assar no forno. Quando se chega à mesa e já servidos, o vinho está diferente, está repleto de fruta rica (cereja, bagas) e sumarenta, viva, limpa, sente-se Alicante Bouschet na alma. O vinho cresce no copo, desdobra-se, cedro, balsâmico, muita pimenta, couro ligeiro, folha de tabaco, bonita complexidade e profundidade. Na boca domina por completo o palato, grande estrutura, fruta compacta, especiaria e ligeiramente terroso, tudo sem descuido em grande harmonia com a frescura a tomar conta de toda a prova. Sem rugas, mas muito nervo e integridade. Vinho de gabarito em qualquer parte do mundo. 96 pts

09 Abril 2014

Quinta dos Roques Garrafeira 2003

Nome maior em Portugal e referência obrigatória no que toca à região onde nasce, o Dão, a Quinta dos Roques será com toda a certeza dos mais consistentes produtores em solo nacional. Ao longo de mais de duas décadas a produzir vinhos fantásticos a Quinta dos Roques tem tido a capacidade de marcar o percurso enófilo de muita gente. Um dos grandes vinhos que ali é criado e o esplendor máximo no que a tintos diz respeito é o Garrafeira, surge nos anos noventa e aqui em prova na colheita 2003. Destaca-se desde logo a frescura e complexidade que debita no copo, simbiose perfeita entre o músculo mais moderno e a elegância mais clássica tão característica da região. Fruta muito limpa, cheio de vivacidade, boa compota, mato rasteiro, caruma de pinheiro, profundo e perfumado. Na boca é uma festa, cheio de harmonia, acidez a tomar conta do palato com muitas bagas silvestres bem sumarentas, especiaria, bergamota, amplo em grande estrutura, no caminho do acetinado em final muito longo. Um hino à região e um dos melhores pontas de lança que Portugal tem para oferecer. A beber até à última gota com um cabrito assado no forno. 96 pts

06 Abril 2014

Casal Sta. Maria Ramisco Colares 2006

Enquanto se deambula pelas supostas virtudes de castas alheias em formato de novo messias, vai-se deixando de lado e esquecido todo um vasto património que de tão rico, leva gente importante lá de fora a dizer que Portugal é algo de fantástico e único. E enquanto "o meu é que é bom" e "a finesse mora lá fora" há zonas esquecidas em Portugal que lutam contra a pressão e sufoco dos tempos modernos. Haja pois gente com paixão, com vontade, pessoas que apostam em vinhas perdidas que se contorcem em terrenos de areia, tudo ali perdido no meio de luxuosas e recentes moradias na zona das Azenhas do Mar. E depois é toda uma lição, um ir contra regras que se pensam ser lei imposta pelo mercado e por um tal consumidor inventado por sabe-se lá quem, que supostamente sabe e manda em tudo.

Aqui o que nos salta à vista é um tinto 100% Ramisco de 2006 do Casal Sta. Maria (Colares), um  vinho com oito anos que apenas agora é lançado no mercado, um atrevimento para alguns e continua pela tonalidade que mostra, longe das excessivas concentrações da dita "moda". Bouquet repenicado de coisas boas, madeira exótica, fruto vermelho muito limpo e ácido, cerejas e ameixas, complexo, húmus, travo verdasco em fundo e resultante do 30% engaço que levou. Acidez alta que lhe dá uma frescura de muito bom nível, a mesma que faz as delícias a acompanhar com pratos mais pesados, a fruta saboreia-se na boca, palato requintado e elegante com bom nervo a indicar que ainda tem muitos anos pela frente. Custa 25€ vendido em caixas de três garrafas. 93 pts

Casal Sta. Maria Malvasia Colares 2011

Saúda-se o surgimento de mais um produtor a apostar na tão nossa e ao mesmo tão esquecida região de Colares, onde as vinhas em chão de areia são de uma beleza única. O produtor em causa é o Casal Sta. Maria e tem por detrás uma bonita história que será contada a seu devido tempo, por agora resta-me falar deste seu primeiro D.O.C. Colares Malvasia 2011. Um vinho que se destaca por uma abordagem mais moderna, nunca perdendo o fio condutor que a região imprime. É certo que se nota ali a barrica nova um pouquinho mais presente, bem integrada, nada que incomode e até aconchega a belíssima acidez e mineralidade reinante. Um vinho elegante, muita classe embora tenso e por se desenvolver na máxima plenitude, puré de maçã, muito citrino com erva cidreira (tisana), mineralidade. Na boca complementa-se com a prova de nariz, saboroso, secura em pano de fundo, equilibrado e amplo, apontamento de fruto seco e salgado em fundo com uma boa persistência final. Tal como no tinto, o preço é de 25€ a unidade. 91 pts

31 Março 2014

Maias 2011


 Diz a tradição que na noite de 30 de Abril para 1 de Maio se coloquem nos ferrolhos das portas e janelas  ramos de giestas em flor, as Maias. Dizem os antigos que tal se faz para não se deixarem entrar os maus espíritos, o "Maio". Ora neste caso nada melhor para espantar as coisas más do que um belíssimo vinho de perfil clássico e muito convidativo, o Maias tinto 2011 da Quinta das Maias (Dão). Um vinho de que gosto e ao qual não se fica indiferente perante toda a sua jovialidade, tudo sem grandes alaridos de concentrações ou outros excessos, até no preço a rondar os 6€ é comedido. No tempo que nos dura no copo mostra com seriedade tudo aquilo que a região tem de bom, muita frescura, fruta sumarenta e muito limpa/perceptível, elegância com bonito travo vegetal a conferir alguma secura no final de boca, onde a ligação à mesa está aqui uma vez mais garantida. 90 pts

25 Março 2014

Valdespino Don Gonzalo Oloroso 20 Anos VOS

A capacidade de nos deixar sem palavras e de causar enorme impacto face à qualidade apresentada continua a ser um forte aliado a vinhos como este que agora falo. Valdespino é nome grande no mundo de Jerez, daqueles que tem lugar cativo no Olimpo, cujos vinhos são verdadeiros tesouros da enologia. Este Don Gonzalo é proveniente de uma Solera fundada em 1842, com um estágio superior a 20 anos em botas em que o resultado final é um vinho muito sério e ao mesmo tempo fascinante. Conjunto complexo e muito rico, textura cremosa, untuoso, com notas de frutos secos torrados e salgados, charuto e madeira velha, caramelo, tudo muito elegante. Boca com palato a ficar completamente preenchido, frutos secos salgados, untuosidade com toque melado, poderoso e intenso mas ao mesmo tempo harmonioso e acolhedor. Torna-se irresistível e apetecível, no fim ficamos a rodopiar a copo e a cheirar mais do que uma vez o fantástico bouquet que vai desenvolvendo. Custou coisa de 27,75€ em loja online. 96 pts

20 Março 2014

Ninfa Escolha Pinot Noir 2011

Quando provo certos vinhos dos quais vou ouvindo falar um pouco por todo o lado, por vezes fico sem entender muito bem o que dizer quando termino a prova do dito cujo. Primeiro porque me faz confusão como é possível que se elevem determinados vinhos para patamares que literalmente não têm arcaboiço para tal, é a meu ver mau para o vinho e para o produtor que fica crente numa realidade dominada pela ficção. O vinho de que falo é mais um dos Pinot Noir feito em Portugal e neste caso ou temos uma abordagem de Pinot Noir à moda de... ou como quase sempre acontece e é o caso, temos um tinto feito à base da dita casta. Se como tinto é um bom vinho, falta pureza e definição o que resulta do amontoado de aromas com a fruta presente com leve apontamento fresco, boa envolvente e que no geral dá uma prova satisfatória, como Pinot está longe de exemplos como o Campolargo ou mesmo o Quinta de Sant´Ana. 89 pts

19 Março 2014

PL/LR Velho Mundo XI

Este vinho de mesa, o ano apenas se dá a entender pela numeração romana no rótulo, resulta de um projecto Paulo Laureano/Laura Regueiro onde se juntam uvas da Vidigueira (Alentejo) com uvas do Baixo Corgo (Douro). Neste caso específico foi utilizado Antão Vaz, Gouveio, Viosinho e Malvasia, onde apenas a uva do Alentejo estagiou em barrica. Se há o direito a criar, a fazer ou a inovar também há o direito a opinar sobre a obra apresentada e nesta perspectiva direi que o vinho me soube a pouco. Foi-me apresentado com entusiasmo mas não lhe achei muita graça, um vinho balofo onde tudo aparece pesado, com pouco movimento de cintura, numa amálgama demasiado redonda e pesada sem que venha uma acidez cortante e vincada a salvar o conjunto. Pouco esclarecimento ou definição apesar de dar uma prova boa mas não passa disso mesmo, com várias tapas que lhe foram sendo lançadas em jeito de salva vidas nenhuma o conseguiu trazer à tona... até mesmo um queijo de ovelha no forno lhe passou literalmente por cima tal a falta de frescura, algo que a temperatura a aumentar no copo transformaram este branco num verdadeiro naufrágio. 88 pts 

18 Março 2014

Gouvyas Vinhas Velhas 2003

Gouvyas Vinhas Velhas é nome grande do Douro injustamente esquecido pelas lides enófilas dos tempos modernos, fruto do reboliço causado por paixonetas de ocasião. A Bago de Touriga é uma pequena empresa duriense liderada por Luís Soares Duarte e João Roseira, os vinhos que criam expressam o terroir único do Douro. Para este Vinhas Velhas foram seleccionadas parcelas de vinhedo com mais de 60 anos localizados no Cima Corgo (Vale de Mendiz e Soutelo do Douro). A produção final deste Vinhas Velhas é reduzida sendo esta a garrafa nº 2139 de um total de 3150 num vinho onde pontifica o carácter bem vincado da região, com raça e carácter, mas muita elegância. 

A evolução ao longo destes quase 11 anos foi e continuará a ser muito positiva, pois toda a sua estrutura indica que foi feito para durar... como perdura no final de boca e no palato. É complexo, intenso, cheio de nervo com a fruta escura (amora, cereja) a mastigar-se tão sumarenta e madura, azeitona, terroso, especiarias, esteva em flor na bonita austeridade que emana. O vinho dá voltas e voltas no copo, precisa de tempo e de paciência, a frescura que o rodeia faz que apeteça mais um e outro copo, a conversa vai longa, os sorrisos à mesa confirmam a sua grandiosidade. 94 pts
Fotografia & Receita

Redoma Reserva 2005

É sempre com enorme prazer que me reencontro com esta colheita 2005 do Redoma Reserva (Douro) da Niepoort, relembrando a primeira vez que o encontrei no copo, o vinho evoluiu com uma nobreza fantástica, digna dos mais altos elogios e com direito a estar na cúpula dos grandes brancos alguma vez feitos em terras de Portugal. Envolto numa fina capa dourada, perfumada por  cera de abelhas, muito melado, gordo e untuoso mas bem fresco numa acidez que perdura durante toda a prova. Cresce no copo, sem cambalear, harmonia e muito equilíbrio, fruta madura com bons apontamentos cristalizados e de geleia, erva de cheiro, num fundo amanteigado. A prova de boca replica o já encontrado no nariz, elegante com untuosidade, saboroso, longo e persistente final naquilo que se perfila como um grande branco aqui e em qualquer parte do mundo. 95 pts

17 Março 2014

José de Sousa Mayor 2011

Continua Mayor o tinto José de Sousa (Reguengos de Monsaraz) de fina estirpe Alentejana e cuja fatiota se tem vindo a adaptar aos tempos modernos. Surge pois um tinto mais opulento, cheio de genica e mais pronto a beber, com mais gorduras e sem ser tão tenso ou rijo como me recordo dos tempos da juventude de um 1994 ou 1997. Continua no entanto a ser um belo tinto da planície, onde predomina a casta Grand Noir, num todo que conjuga fruta escura gulosa com folha de tabaco, café, especiarias (cravinho), terra molhada, tudo embrulhado numa barrica que não chateia. Ainda novo com tudo para se desenvolver, fruta bem presente na prova de boca, alguns taninos em fundo embora todo ele a mostrar elegância. O preço ronda os 19€ num vinho que mostra aptidão para guarda prolongada, sendo desde já companheiro de um bom Ensopado de Borrego. 92 pts
 
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